Salas

Sala 1 – Artesanato


pandeiro_2_artesanato_ (7)Da argila primordial surgiria a humanidade, modelada por invisíveis mãos superiores.

Mas seriam mãos humanas as responsáveis pelo fabrico das coisas que lhes dariam o sustento do corpo e enlevo da alma, pelos milênios seguintes. Mãos e mentes.

10553333_919405314756213_710487299193896043_nDessa fusão original, desabrochariam sonhos e objetos em profusão. Da simples pedra lascada ao satélite intergaláctico, sensibilidade e engenho foram aplicados para que os seres pudessem usufruir a existência terrena de forma plena, confortável e prazerosamente.

As técnicas foram evoluindo, vieram as máquinas e suas padronizações facilitadoras, mas a capacidade de criação humana é inesgotável e avessa às acomodações. Doce e eterno paradoxo. Em meio ao embate tecnofilosófico, a habilidade manual mantém pulsante a ancestral característica do uso das mãos como alavanca tridimensional das formas e desejos mais íntimos, usando apenas o que lhes oferece a natureza ou os descartes das civilizações. Pau, pedra, barro, ferro, palha, pano, couro, plástico, vidro, fibra, linha e infinitos materiais ganham novos contornos e utilidades quando manuseados por quem tem habilidade e vontade de transformar.

10417434_919404251422986_3235558226775346707_nEm todo lugar é assim. Na Paraíba, também.

Na Sala 1 do MAPP figuram representações tipológicas de técnicas, inventividade e destinações, algumas mantendo a tradição original das suas heranças, outras criações influenciadas pelas mudanças do mundo contemporâneo – simbioses, reconstruções, revisitações a fontes esquecidas. No conjunto, uma visão sintetizada do trabalho produzido por milhares de homens e mulheres, hoje reconhecidos e festejados aqui e muito além das fronteiras.

Os objetos expostos representam uma parte do vasto universo dessa criatividade, entre elas a arte das cerâmicas, dos rendilhados, das madeiras, dos teares e cordoaria, do metal da funilaria e da forja, do couro e sua peleteria, da vegetação com suas fibras, das tinturas e resinas, de tudo que possa ter servido no passado à sobrevivência e ao conforto do povo sertanejo, do brejeiro e do litorâneo, seus festejos, suas crenças, brincadeiras, adornos, enfim, a tradição da arte manual que se incorpora ao mundo atual não apenas como mercadoria, mas como legítima herança da cultura paraibana, abrigada numa arquitetura futurista, espaço especialmente construído para a preservação e difusão desses valores.

 

Confira uma lista de artistas e grupos em exposição nesta sala.

  • Adeilson Eliziário
  • Anita Garibaldi de Souza
  • Antônio Filismino de Sousa
  • Argemiro Cândido da Silva
  • Associação Comunitária das Louceiras
  • Negras da Serra do Talhado
  • Associação das Fileteiras do Salgado de São Félix
  • Associação das Louceiras do Bairro São José
  • Associação dos Artesãos de Riacho Fundo
  • Associação dos Artesãos do Cariri Ocidental – ARCA
  • Associação dos Tecelões e Pequenos Produtores de Boqueirão
  • Babá10514551_1509053002666714_8671942654686209820_n
  • Biágio Grisi
  • Chico Ferreira
  • Cooperativa de Artesanato de Pocinhos
  • Dimas Matias da Silva
  • Edilson COsta
  • Entre Fios
  • Evanilda Lima Souza
  • Expedita da Costa Medeiros
  • Fábio Smith
  • Fernando Valentim (Mestre Valentim)
  • Flaviano Marinho Falcão
  • Galpão das Louceiras da Serra do Talhado
  • Geralda Lopes de Albuquerque1926642_1509052626000085_1642776166752976107_n
  • Gina Dantas
  • Givanildo Ismael Silva
  • Gláucia Maria Gomes de Almeida
  • Grupo de Artesanato em Madeira Paulina DIniz
  • Grupo de Produção de Renda de Bilro Guariguazi
  • Ieda Monteiro de Farias
  • João Avelino
  • João Batista Barreto
  • João José do Nascimento Neto
  • Joca
  • Joeudes Carneiro
  • José Morais Santos1901600_1509052476000100_7341115219953904391_n
  • Jussara Bomfim
  • Lamarck Menezes
  • Lee Art
  • Lia
  • Lindalva Neri
  • Lidinaldo Antônio do Nascimento
  • Lucimery Oliveira de Melo
  • Lucinha dos Bichos
  • Madriano Basílio
  • Manoel Severino da Silva
  • Mara Cavalcanti
  • Márcia Aparecida
  • Maria Adelaide SIlva de Carvalho
  • Maria dos Mares1551667_1509052829333398_8888065423094656600_n
  • Mauricio Nassau de Farias
  • Mena Cavalcanti
  • Mestre Messias
  • Mestre Nino Prazeres
  • Morena
  • Neguinha do Casserengue
  • Nenê Cavalcanti
  • Nevinha
  • Nezinho
  • Núcleo Familiar de Produção de Brinquedos Populares
  • Oficina de Arte de Caaporã
  • Oziel Dias
  • Raquel Maria da Paz
  • Rendas da Paraíba
  • Seu Bento
  • Socorro Pereira
  • Seu Biu
  • Tê Cavalcanti
  • Terra do Sol
  • Tiago José de Sousa Filho
  • Timóteo
  • Tota
  • Wandelery Camilo dos Santos

Clique aqui e saiba mais sobre​ os artesãos e grupos desse gênero artístico na Paraíba, conforme levantamento realizado pelo MAPP.

Sala 2 – Música


1979268_1509045539334127_6691217408440994596_oDiversidade, qualidade e quantidade.

Havendo a necessidade em resumir a música gestada na Paraíba em poucas palavras, as descritas acima podem ser aplicadas sem temor. Sob qualquer ângulo, artístico, estético ou técnico. Historicamente é assim.

A variedade e inventividade com que músicos, intérpretes, letristas, arranjadores e regentes têm conduzido as sonoridades regionais, desde os primórdios, remetem o observador contemporâneo a uma conclusão óbvia, embora surpreendente. Há um “Reino dos Ritmos” pulsando por estas plagas. A perenidade desse01d7c7e199158a2bf4885c446bfe96c6162 rio caudaloso tem permitido que centenas (milhares, até) de conterrâneos reguem suas vertentes melódicas com determinação e resultados sinérgicos. Sempre houve, há e haverá paraibanos (nativos ou adotivos) brilhando no cenário nacional e internacional, lastreados pelo que assimilaram por aqui, com o necessário reforço de variadas conexões de vida, incorporado nos percursos de cada um. Alçam voos, mas plainam de volta, trazendo o mundo na bagagem, depois de semearem a poeira do chão que lhes moldou.

São tantos, que ainda não se sabe quantos. Os registros dessa façanha coletiva, dispersos por prateleiras empoeiradas ou memórias esvoaçantes, passam a ter no Museu de Arte Popular da Paraíba sua cidadela inexpugnável. Áudios, vídeos, imagens, objetos e documentos relevantes desses homens e mulheres originais encontrarão no MAPP a devida guarida, ordenamento e zelo, permitindo a continuada preservação do vigoroso patrimônio musical paraibano, ancorado na partilha do conhecimento, como impulso aos avanços e transformações.

Processo em permanente construção, o acervo acumulado só poderá ser considerado “concluído” quando todas as peças do quebra-cabeça estiverem reunidas e acolhidas, com a devida chancela conceitual tecnológica. Até lá, ficam à disposição as elucidativas representações, unindo plateia e palco em estimulante e cúmplice acorde, como legítimos guardiões dos tesouros do reino, sendo o “Museu dos 3 Pandeiros” o castelo que faltava no “terreiro da alegria”.

Conheça alguns dos artistas que estão na Sala de Música

Sivuca – O Universal

sivucaNa primeira vez que esteve em Copenhague, em 1967, Sivuca se sentiu em casa, entre os seus. Gente de tez alvejada, como o instrumentista albino, os dinamarqueses manejavam o acordeon com a mesma intimidade que o brasileiro tocava cavaquinho. Em meio a eles, o paraibano Severino Dias de Oliveira despontaria como mestre. Por aqueles dias, outros países, como Portugal, Inglaterra, Bélgica, Suíça, França, Suécia, Finlândia, Noruega e Estados Unidos já conheciam e reverenciavam o talento do gênio de Itabaiana. Até o final da década de 1970, depois de ter gravado com gente do primeiro time do cenário internacional (como a festejada cantora africana Miriam Makeba), Sivuca realizaria turnês pela Ásia, África, Europa, América do Sul e América do Norte, tendo sido aplaudido de pé em inúmeras ocasiões, inclusive no Carnegie Hall. Conquistando o mundo, agora faltava o Brasil. De novo.

O precoce sanfoneiro, que dedilhara um instrumento pela primeira vez aos nove anos de idade, tivera uma carreira meteórica, impulsionada pela musicalidade incomum, com passagens por João Pessoa, Recife e Rio de Janeiro, antes de resolver se instalar no exterior. Só em Nova York foram 12 anos de residência. Embora continuasse gravando no Brasil, a carreira internacional o afastaria fisicamente das gerações posteriores à década de 1950, criando um “vácuo” que seria preenchido a partir dos anos 80, quando voltaria a residir no país, já casado com a compositora e parceira Glorinha Gadelha, também paraibana, de Sousa. A série de discos – Sivuca, Forró e Frevo – levaria o público brasileiro a retomar o contato com o multi instrumentista, arranjador, compositor, orquestrador e cantor “redescobrindo” a excepcionalidade de sua vasta e densa obra, cujas sonoridades, entre o popular e o erudito, foram lapidadas com o esmero de um ourives e a destreza de um artesão.

Nascido em 26 de maio de 1930 e falecido em 14 de dezembro de 2006, Sivuca deixaria uma herança preciosa e praticamente inexplorada, com registros de variados gêneros, indo do jazz ao baião, do blues ao choro, da polca ao frevo, do upacanga ao samba, da valsa ao forró… Os sons do mundo. Entre o primeiro sucesso, em 1950, “Adeus Maria Fulô”, em parceria com Humberto Teixeira, e a gravação do DVD com a Orquestra Sinfônica da Paraíba, pouco antes de partir, o “Cabelo de Milho” conseguiria chancelar à posteridade uma prova inexorável da musicalidade brasileira, oriunda do Nordeste e disponível a todos os povos. Deste ou de outros planetas.

Jackson do Pandeiro

[1919]

Nasce a lenda

5617a9e6bf1aa0307f208ca6d7b240fcJosé Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro, nasceu em 31 de agosto de 1919, em Alagoa Grande, na Paraíba.

Considerada a “Rainha do Brejo”, foi por lá que obteve os primeiros contatos com as batidas rudimentares do coco, através da mãe, Flora Mourão, reforçado pelo diversificado ambiente musical, indo dos cantadores de feira aos saraus promovidos no Teatro Santa Ignez.

O ator de filmes faroeste, Jack Perrin, inspiraria os trejeitos e o apelido do menino criado solto, tendo como compromisso ajudar o pai, o oleiro José Gomes, e acompanhar as peripécias sonoras da mestra por sítios, feiras, povoados e aonde mais houvesse um forrobodó à base de coco, ciranda, maracatu, embolada, entre outros gêneros musicais e coreográficos.

Com a morte prematura do pai, a família parte para Campina Grande, onde Flora, Zé Jack, Severia (Briba), Cícero e João (Tinda), traçam um novo desenho para suas vidas, antes fadadas ao anônimo infortúnio.

A música mudaria seus destinos.

[1930]

Linda flor, linda morena

Campina Grande, “Rainha da Borborema”, abastado e pulsante entreposto comercial, estrategicamente situada no “centro” do Nordeste, sempre atraiu variados contingentes de trabalhadores, que ajudaram a moldar uma faceta empreendedora e alegre.

Frequentando “casas de recursos” (ainda menor de idade), difusoras, feiras e emissoras de rádio, o então já conhecido Jack do Pandeiro tocou bateria, mas firmou-se como pandeirista, ao lado do cunhado Zé Lacerda (irmão de Genival Lacerda, o “Senador do Rojão”), do sanfoneiro de oito baixos Geraldo Correia (com quem teve parcerias instrumentais gravadas), do também pandeirista Mauro Barros (irmão do compositor Antônio Barros) e de outros lendários bambas do forrobodó.

Na cidade cosmopolita, aperfeiçoaria seus dons naturais, essencialmente rural, acrescentando à bagagem rústica outros formatos sonoros e peripécias pessoais. Do período, surgiria, em 1971, a autobiográfica “Forró em Campina”, onde daria indicações das raízes inexoráveis: “Bodocongó, Alto Branco, Zé Pinheiro, aprendi tocar pandeiro nos forrós de lá…”.

[1948]

Estrela Regional

Após uma briga na “Mandchúria” (zona meretrícia), Jackson se muda para João Pessoa, ganhando espaços na Rádio Tabajara (berço musical do maestro Severino Araújo) e em conjuntos de baile, onde seria pupilo do iniciante maestro Moacir Santos. Com emprego certo e casa montada, manda buscar a família. A vida melhora, mas é nessa fase que surge o maior revés até então, com a perda da venerada mãe. Casa de novo (com Maria das Dores) e é convidado a atuar em Recife, um degrau a mais na escalada. A estrela paraibana em breve seria regional.

A Rádio Jornal do Comércio, inaugurada em julho de 1948, surgiria em meio à efervescência musical do país, promovida pelas ondas da Rádio Nacional e a expansão da indústria fonográfica. Nasceria moderna e bem equipada. Jackson faria parte do cast inicial da emissora e ali concluiria o aprendizado artístico iniciado na Paraíba. Tocando pandeiro, bongô e cantando sambas e cocos, projeta-se no cenário local e conquista uma legião de fãs, chamando a atenção das grandes gravadoras, que buscavam alguém para enfrentar a hegemonia de Luiz Gonzaga, o imbatível campeão de vendagem de discos.

Por aqueles dias, nasceria um outro rei, o do ritmo. O baião recebia a companhia do coco.

[1953-1967]

Sina de Cigarra

Após o primeiro disco, em 1953, seguiriam outros sucessos, como a “A Mulher do Aníbal” (Genival Macedo e Nestor de Paula), “Coco do Norte” (Rosil Cavalcanti) e “17 na Corrente” (Edgar Ferreira). Jackson e Almira, casados desde 1954 e residindo no Rio de Janeiro, iam colecionando apelidos dados pela imprensa: “dupla do barulho”, “dupla de ouro, “dupla atração”, dupla sensação”, “dupla-orgulho”, “casal infernal”, “dupla sapeca”, “par fenomenal”, “donos do ritmo”… Na intimidade, ele preferia “o jarro e a flor”.

No auge do sucesso, participam de nove filmes, conquistam programas próprios em emissoras de tevê e rádio, compram apartamentos e gozam o estrelato com harmonia, humor e paixão adolescente: “Levamos aqui no Rio, uma vida intensamente nordestina: na comida, na decoração do apartamento e nos costumes”, diria Jackson à Revista do Rádio. Em 1967 com o casamento desfeito, restaria o último sucesso da dupla, em parceria com Gordurinha, a emblemática “Chiclete com Banana”.

Por essa época recebe a chancela em disco que selaria para sempre sua vida e obra: “Sua Majestade, o rei do ritmo”.

[1968-1981]

Obra eternizada

Após a separação, Jackson conhece Neuza Flores dos Anjos, durante um show em São Paulo. No outro dia, com endosso dos pais, levaria a baianinha para casa, em Olaria, no Rio. Os próximos anos seriam de dificuldades financeiras, acidentes de carro e a retração da música regional, atropelada pelo avanço dos “estrangeirismos” e da Jovem Guarda. Produz muito, troca de gravadoras, mas não consegue o mesmo sucesso de antes. Penúria e ostracismo o acompanhariam por um bom tempo.

Com a queda do mercado discográfico, intérpretes e grupos, incluindo expoentes como Luiz Gonzaga, Marinês, Trio Nordestino e Dominguinhos, passam a resistir com shows em praças, feiras, circos e outros locais menos “glamourosos”. Nesse período, Jackson conseguiria manter, ao lado do radialista Adelzon Alves, um programa de forró na Rádio Globo, atraindo esse universo “órfão”, contribuindo decisivamente para a sobrevivência profissional de artistas consolidados ou iniciantes.

“O Velho”, como o apelidaria o meio artístico, a despeito da retração na popularidade e diversificada busca religiosa, consolida nome e obra na constelação musical brasileira. O homem definharia e surgiria o mito.

[1982]

Viva o Rei!

Redescoberto por Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque, Geraldo Azevedo e outros cabeludos, Jackson tem a agenda reativada, sendo convidado a se apresentar em palcos nunca antes navegados, como o Teatro Carlos Gil, o Opinião, o João Caetano e espaços como os projetos “Seis e Meia”, “Nove e Meia” e “Pixinguinha”, aonde dividiria o palco com Anastácia, Alceu Valença e os jovens Cátia de França e Jarbas Mariz, sempre acompanhado do grupo Borborema, integrado pelos irmãos Cícero e Tinda, com o sanfoneiro Severo na última formação.

José Gomes Filho faleceria em 10 de julho de 1982, após passar mal durante um show em Brasília. No ano anterior, lançara o último disco (Isso é que é forró) e conseguiria, nos derradeiros instantes da vida, ver retomado o prestígio pessoal e revigorada a música nordestina, cujo diversificado repertório adotara como sacerdócio. Cocos, baiões, sambas, marchas, rancheiras, batuques, frevos, maxixes, maracatus, fandangos, merengues, carimbós, rojões e dezenas de outros gêneros essencialmente brasileiros compuseram o universo musical gravado pelo “rei da divisão”. Seus restos mortais repousam em Alagoa Grande, desde 2008. A obra, porém, continua espalhada e pulsante, fazendo tum-tum-tum no coração do Brasil.

Marinês – A rainha do xaxado

MarinêsNascida em São Vicente Férrer, Pernambuco, em 16 de novembro de 1935, Maria Inês Caetano chegaria criança em Campina Grande, onde daria os primeiros passos como cantora, se apresentando em difusoras e programas de auditório. Com voz versátil, típica de uma mezzo-soprano, poderia ter escolhido qualquer estilo, mas acabaria enveredando pelo forró, influenciada por Luiz Gonzaga, seu grande ídolo.

Do casamento com o sanfoneiro Abdias, além do filho Marquinhos nasceria a “Patrulha de Choque do Rei do Baião”, contando, ainda, com o talento do zabumbeiro Cacau. Mambembe, o grupo fazia a abertura dos shows do Rei do Baião, até que, em 1956, Marinês grava o primeiro disco em 78 rpm, onde desponta “Peba na Pimenta” (José Batista, João do Vale e Adelino Ribera), seu grande sucesso, ao lado de “Pisa na Fulô” (João do Vale, Silveira Junior e Ernesto Pires), “Aquarela Nordestina” e “Saudades de Campina Grande”, ambas de Rosil Cavalcanti.

A partir de então, inicia-se uma curva ascendente no seu percurso musical, transbordando as fronteiras regionais e colocando-a no patamar da Música Popular Brasileira, acompanhada da inesquecível marca “Marinês e Sua Gente”, título da banda que a consagraria.
Pioneira e aguerrida, Marinês surgiria, em plena década de 1950, com uma desenvoltura desconcertante, em meio a um mundo artístico predominantemente masculino. Com voz marcante, vestindo saia, gibão e chapéu feitos de couro, dançando xaxado e tocando triângulo, seria desbravadora e fiadora de preciosos espaços ocupados por outras artistas nordestinas, como Anastácia, Marinalva, Elba Ramalho, Hermelinda, Clemilda, Chiquinha do Acordeon, Adélia Ramos, Socorro Lira, Sandra Belê, Lucy Alves, e outras menos conhecidas, como Leda Silva, Vaudete, Maria Bonita, Aurea Lane, Lili Melo, Lenita Santos e Mêves Gama.

Falecida em 14 de maio de 2007, Marinês deixaria mais de 40 discos lançados e um inestimável legado artístico e humano, herança eterna de sua gente.

Rosil Cavalcanti – O Zé Lagoa

RosilRosil de Assis Cavalcanti, compositor, ator e radialista, nasceu em Macaparana, em Pernambuco, em 20 de dezembro de 1915, tendo vivido a parte áurea de sua carreira artística em Campina Grande, onde se casaria com Maria das Neves Ramos Coura. Irrequieto, avesso às amarras, adotaria um estilo independente, inovando na técnica de apresentação de seus programas e esquetes radiofônicos, transitando entre o cômico, o dramático e o musical, inaugurando o atual formato de “âncoras”, com comentários ácidos ou jocosos, dependendo da situação, muitas vezes encenada por ele mesmo, desempenhando variadas vozes e papéis. Antes de se mudar definitivamente para a “Rainha da Borborema”, moraria em Recife, Rio e João Pessoa, período em que conheceu Jackson, formando a dupla “Café com Leite”.

Despontaria no cenário discográfico com a música “Meu Cariri”, gravada originalmente por Ademilde Fonseca, vindo em seguida “Sebastiana”, lançada por Jackson do Pandeiro em 1953. Com o ritmista gravaria mais de 20 músicas, além dos cantores Abdias, Ary Lobo, Zé Calixto, Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Marinês, Genival Lacerda, Anastácia, Teixerinha, e mais uma extensa listagem de cantores e cantoras menos destacados, que ajudariam a disseminar o diversificado repertório de “Zé Lagoa”, apelido que incorporaria para comandar seu universo fictício e carismático.

Falecido em 10 de julho de 1968 (coincidentemente no mesmo dia da morte do Rei do Ritmo, ocorrida em 1982), seus sucessos continuariam povoando o imaginário coletivo, através das vozes contemporâneas de Clara Nunes, Gal Costa, Gilberto Gil, Alceu Valença, Zé Ramalho, Dominguinhos, Jorge de Altinho, Elba Ramalho, Biliu de Campina e outros bambas do forrobodó.

Embora sem a mesma visibilidade dos intérpretes de suas canções, Rosil teria para a música nordestina importância equivalente à de Zé Dantas, Humberto Teixeira e João do Vale, entre outros compositores de relevo, com uma obra compacta (cerca de 130 gravações), mas de qualidade transcendental.

Sala 3 – Cordel


pandeiro_1_cordel_ (3)10703951_1509043659334315_4153326272038444064_nA cantoria é a mãe do cordel. Letra e voz, galhos do mesmo tronco. Através da xilogravura, as palavras impressas em cordel ganharam vida, desenhando com criatividade e encanto o fantástico, o mítico, o trágico, o cômico das capas de folhetos. E a Paraíba, o berço que embala o canto dos maiores nomes da poesia e da música popular nordestina de todos os tempos. Cantada, declamada ao som do improviso, foram nossos menestréis verdadeiros agentes transmissores da tradição oral e imaterial do povo brasileiro. Antes, vozes poéticas nômades, levando notícia e lazer ao povo: do interior à cidade, da casa grande aos salões requintados, da feira aos palcos; desbravando fronteiras físicas e imaginárias, precedendo o jornal, o rádio, a televisão e a internet. Com o advento das tecnologias da informação e da comunicação nascentes no século XXI, ao ritmo das mudanças da sociedade da época, a cantoria se transforma; reinventa-se, reforça-se. Com o passar dos tempos, vem afirmando-se nas produções poéticas de um passado-presente que continua vivo, influenciando uma seara de artistas.

MariaDesde sempre, a Paraíba impôs-se como celeiro fértil de uma das mais extraordinárias genealogias que forma o balaio de vates da historiografia poético-musical nordestina: de Agostinho Nunes da Costa e seus descendentes, Nicandro, Nicodemos e Ugolino; dos Nunes Batista do Nordeste, os irmãos Batista, Romano Elias da Paz, Silvino Pirauá Lima, Romano do Teixeira, Pinto do Monteiro, José Alves Sobrinho, Zaira Dantas, Oliveira de Panelas, aos poetas, editores e xilógrafos; José Laurentino, Chico Pedrosa, Lourdes Nunes Ramalho, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Manoel Camilo dos Santos, João Melchiades F. da Silva, José Camelo de Melo Rezende, Manoel d’Almeida Filho, Apolônio Alves dos Santos, Manoel Monteiro, Antônio da Mulatinha, Antônio Lucena, José Costa Leite, Silas, Arnilson Montenegro e Josafá de Orós, entre outros.

Para todos que admiram o cordel e a xilogravura, o MAPP dispõe de um amplo acervo, um dos maiores da América Latina, fruto da Biblioteca de Obras Raras Átila Almeida (Boraa) da UEPB, referência mundial no assunto.

Sobre a exposição

Cantoria, Cordel, Xilogravura – para ver, ouvir e cantar

“Há muito mais de um século
Todo sertão brasileiro
Principalmente o Nordeste
Este vem sendo o primeiro10511341_1509044349334246_4124754234057481787_n
Que tem através do verso
Notícia do mundo inteiro

Temos jornal e revista
Mas o sertão não conhece
A sua atualidade
Em poucas cidades cresce
Sertão só se informa bem
Quando o cordel aparece.”

(Manoel Caboclo e Silva)

jose-egitoNas cordas do tempo, tecem-se histórias e estórias em cordel. A nossa tradição oral vem, ao longo dos séculos, mantendo-se perene graças aos menestréis de outrora, porta-vozes de uma época crucial de nossa historiografia oral e da sua transição para o mundo da escrita.

10410489_1509057742666240_6271552723243446602_nEnraizados numa cultura onde o conhecimento, a experiência, o agir no mundo, independem do saber livresco, onde aprende-se fazendo, e faz-se aprendendo, pela imitação, repetição, reinvenção dos gestos, dos ritmos, dos conhecimentos, trazidos pela tradição. Foram esses vates, testemunhas privilegiadas de um passado-presente, que animaram e transformaram o imaginário do povo nordestino. A história de nossos mestres (poetas, cantadores repentistas, emboladores de coco, glosadores, declamadores, xilogravadores, etc), seus saberes e fazeres, permanecem presentes no século XIX, revelando com autenticidade a vitalidade de uma arte que vem se reinventando, cujos atores seguem atentos à tradição, reescrevendo novos capítulos da sua fascinante história com outras linguagens, suportes e espaços.

A exposição Cantoria, Cordel, Xilogravura – para ver, ouvir e cantar é um passeio histórico e cultural em torno da cultura nordestina, berço da civilização ibérica no Brasil, com suas influências mouras e judaicas. Através de uma seleção de folhas soltas, folhetos de cordel, almanaques e xilogravuras, presentes no acervo da Biblioteca de Obras Raras Átila Almeida, pode-se acompanhar as narrativas poéticas de fatos e estórias da vida cotidiana e do imaginário do povo do Nordeste. Essas poéticas orais, cantadas, declamadas, talhadas na madeira, encontraram no folheto de feira (segunda metade do século XIX) um novo palco de atuação. Uma vez impresso, longe do universo da performance da cantoria, o cordel tornou-se o jornal do povo, feito para o povo ver (ler), ouvir e cantar.

Cantoria1888632_1509043719334309_14399545003860877_n

“Fazer verso mesmo errado;
Mal rimado, mal medido
Um pé curto, outro comprido,
Dá um trabalho danado;
Mesmo desmetrificado,
Nem todos sabem fazer,
Quem possui este poder,
Este dom esta grandeza
Foi buscar na natureza
É mestre sem aprender”.
(José Alves Sobrinho)

A base dessa tradição é a poesia oral, organizada em dois tipos de manifestações, a performance poética ou poesia dialogada, improvisada, chamada repente; e o monólogo poético, que cede lugar à memorização de textos poéticos preexistentes, ao lado da improvisação. As duas artes encontram sua expressão artística maior na cantoria, entendida como o duelo verbal entre dois poetas cantadores repentistas, que se apresentavam a um público atento, por fazendas, sítios, feiras e festas populares espalhadas na zona rural, alcançando as cidades.

Cordel

“Vem de um tempo cruel, medieval,
Pelas ruas e feiras foi cantado,
Pelos centros mais cultos foi tratado
Como literatura marginal.
O seu nome nasceu em Portugal
Onde o mesmo era exposto num cordão;
No Brasil, numa nova geração,
Juntamente aos poetas da viola,
O cordel hoje entra na escola:
É cultura, é lazer e educação.
(Alfrânio de Brito)

e73692d79b1047bbaf227ba48d7451ef812O cordel vai percorrer a Europa, aparecendo na França como a literatura de Colportage (Bibliothèque bleue), folhetos produzidos na cidade de Troyes em 1843; na Inglaterra, chapbook ou balada; na Espanha, pliego solto ou les pliegos de cordel; em Portugal, literatura de cordel ou folhas volantes. Os intelectuais brasileiros começaram a associar essa literatura da voz, impressa em forma de folheto, ao fenômeno conhecido na Península Ibérica, como literatura de colportage, posteriormente designado de “cordel” por estar próximo aos folhetos que circulavam em Portugal, nas feiras e praças públicas, sendo vendidos ali por cegos, suspensos em fios presos por meio de pegadores de madeira.

Quanto a isso, o folheto típico é uma folha de papel-jornal, dobrada duas vezes, dando o formato de 11×16, com número variado de páginas, sempre múltiplas de 4. Quanto ao número de páginas, o folheto prende-se ao conteúdo e podem ser classificados em folhetos de 8,12 e 16 páginas. Quando composto de 24, 32, 48 ou 64 páginas, recebem a classificação de histórias e/ou romances.

Xilogravura1551639_1509043046001043_5830891098058322316_n

“A escola do sertão
Começou a se firmar
Com folhetos ilustrados
Tendo capa para mostrar
XIlo foi o grande gesto
Dos desenhos nos impressos
Que a madeira foi gravar”
(Fernando Venelito)

04022011080216Arte funcional das tradições orais, a xilogravura encontrou no folheto de cordel um meio de divulgação propício ao seu desenvolvimento. No século XIX e início do século XX, surge nas ilustrações de romances populares e periódicos, tendo os poetas maior acesso aos gravadores locais, com relação a demora na fabricação dos clichês metálicos (zincogravuras), passando a xilogravura a ser mais utilizada para ilustrar capas de folhetos. Os traços toscos, esculpidos nas matrizes de madeira (tacos), caíram no gosto de um público seleto de colecionadores, sobretudo pela criatividade com que os xilogravadores retratavam o imaginário lúdico, mágico e fantástico das narrativas orais.

Orientações ao visitante


Espaço público, de natureza educacional e contemplativa, o MAPP necessita de cuidados especiais para que possa prestar um serviço de qualidade, dispondo de recursos tecnológicos e técnicos para manutenção e conservação de edificação e acervos, de acordo com normas padrões. A colaboração do visitante, numa vigília compartilhada, é essencial para garantia de circulação, conforto e segurança individual e coletiva. A arquitetura de Oscar Niemeyer, integrando aspectos sociais e ambientais, prima pela ausência de obstáculos visuais, permitindo ao visitante plenitude estética, com mobilidade responsável, devendo ser redobrado cuidado com crianças, anciões e portadores de necessidades de que qualquer natureza. Observar as orientações dos monitores, agentes de segurança, dos guias e sinalizações é premissa básica para uma visitação aprazível e produtiva, em usufruto continuado e cidadão.

Circulação, segurança e pesquisa

  1. Evite correr ou escorregar nas rampas de acesso e corrimões. Rampa molhada, cuidado redobrado. em caso de acidente, acione algum funcionário;
  2. Pela disposição física e acústica dos ambientes, elevar o timbre de voz causa desconforto auditivo, desconcentrando outros usuários;
  3. Pela natureza frágil e desgaste temporal, peças e documentos expostos só poderão ser tocados ou manuseados por técnicos do museu. Patrimônio público, histórico ou artístico tem necessária
  4. legislação protecionista, com rigorosas sanções em casos de violações;
  5. Fumar é prejudicial à saúde e pode causar incêndios. Aos tabagistas, a calçada é o único espaço disponível, com os riscos condizentes à prática antissocial e poluente;
  6. Mantenha distância segura das paredes e painéis envidraçados. Por mais resistente que seja, todo vidro é frágil. Observe as marcações horizontais;
  7. Fotografar é recortar o mundo. O registro fotográfico e fílmico, de caráter pessoal ou científico, é permitido apenas com luz natural ou ambiente. O uso de iluminação artificial é prejudicial à “saúde” das peças.
  8. Há restrição de público na circulação das salas.Observe as indicações. Aglomerações causam insegurança e desconforto em ambientes museológicos com limitações espaciais;
  9. O MAPP disponibiliza informações básicas sobre as vertentes artísticas expostas. Pesquisas avançadas necessitam de agendamento;
  10. Por restrições autorais, registros sonoros, fotográficos ou fílmicos só poderão ser liberados para uso científica, através de solicitação formal, mediante disponibilidade e análise técmnica;
  11. Disciplina é liberdade. A afirmação do poeta se encaixa em qualquer situação de vida. Em espaços públicos, ainda mais.


 

Endereço

Rua Doutor Severino Cruz - Centro
Campina Grande - PB

Contato:

Telefone: (83) 3310-9738

Email: mapp@uepb.edu.br